Entrada n.º 1
A permanência do capitão
Cumpre-me, enquanto veterano de uma carreira que a História ainda não teve a elegância de reconhecer, abordar a mais delicada de todas as etapas: a retirada. Fi-la eu próprio, no instante exato em que o desporto mais precisava de mim, e o pelotão, na sua pequenez, só o compreendeu anos mais tarde.
Observo agora, com a serenidade dos que já subiram mais alto do que se diz, o caso de um insigne craque da modalidade da bola, desporto que honro com o meu respeito distante. Cercado de conselheiros tão zelosos que lhe esconderam o horizonte, foi precisamente mal aconselhado quanto ao momento de desmontar. Afirmo-o com a autoridade que a experiência, e só ela, concede.
Em condições normais, seria impossível. Mas eu nunca me guiei por condições normais.
A equipa, tecnicamente, dispensá-lo-ia. Mas a Federação, instituição de reconhecida sagacidade, apercebeu-se de que o ilustre atleta mobiliza multidões, fundos e receitas, e passou a tratá-lo como um diretor desportivo trata o patrocinador principal: com devoção e sem plano B. O atleta, em reciprocidade, depende da Federação para pedalar nos grandes palcos do velho continente. Eis aquilo a que os leigos chamam dependência e os entendidos, uma fuga em que nenhum dos fugitivos ousa tomar a dianteira.
Tal situação, afirmo com pesar, é nefasta. Conheço-a bem: vivo-a na ACNE, o Agrupamento Ciclista Nacional de Elite que tenho a honra de dirigir, e que atravessa, como é público e notório, um ciclo de crescimento.
Aguardo com ânsia desportiva a solução que a todos satisfaça. Em condições normais, seria impossível. Mas eu, como se sabe, nunca me guiei por condições normais.